A Flor do Sonho, alvíssima, divina, Miraculosamente abriu em mim, Como se uma magnólia de cetim Fosse florir num muro todo em ruína.…
Toda esta noite o rouxinol chorou, Gemeu, rezou, gritou perdidamente! Alma de rouxinol, alma da gente, Tu és, talvez, alguém que se finou!…
Na vida, para mim, não há deleite. Ando a chorar convulsa noite e dia... E não tenho uma sombra fugidia Onde poise a cabeça, onde me deite!…
Deixa-me ser a tua amiga, Amor, A tua amiga só, já que não queres Que pelo teu amor seja a melhor, A mais triste de todas as mulheres.…
A minha Dor é um convento ideal Cheio de claustros, sombras, arcarias, Aonde a pedra em convulsões sombrias Tem linhas dum requinte escultural.…
Tenho ódio à luz e raiva à claridade Do sol, alegre, quente, na subida. Parece que a minh’alma é perseguida Por um carrasco cheio de maldade!…
Tortura do pensar! Triste lamento! Quem nos dera calar a tua voz! Quem nos dera cá dentro, muito a sós, Estrangular a hidra num momento!…
O vento passa a rir, torna a passar, Em gargalhadas ásperas de demente; E esta minh’alma trágica e doente Não sabe se há de rir, se há de chorar!…
Hora sagrada dum entardecer De Outono, à beira-mar, cor de safira, Soa no ar uma invisível lira... O sol é um doente a enlanguescer...…
No silêncio de cinzas do meu Ser Agita-se uma sombra de cipreste, Sombra roubada ao livro que ando a ler, A esse livro de mágoas que me deste.…
Altiva e couraçada de desdém, Vivo sozinha em meu castelo: a Dor! Passa por ele a luz de todo o amor... E nunca em meu castelo entrou alguém!…
Altiva e couraçada de desdém, Vivo sozinha em meu castelo: a Dor... Debruço-me às ameias ao sol-pôr E ponho-me a cismar não sei em quem!…
“Bendita seja a Mãe que te gerou.” Bendito o leite que te fez crescer. Bendito o berço aonde te embalou A tua ama, pra te adormecer!…
Às vezes oiço rir, é ’ma agonia Queima-me a alma como estranha brasa Tenho ódio à luz e tenho raiva ao dia Que me põe n’alma o fogo que m’abrasa!…
Eu q’ria ser o Mar d’altivo porte Que ri e canta, a vastidão imensa! Eu q’ria ser a pedra que não pensa, A pedra do caminho, rude e forte!…
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