A Christo

G Guilherme de Azevedo
0 Altın Yaprak
Precisamos Jesus, se não te sentes velho, Que cinjas novamente o resplendor de luz E venhas explicar a letra do evangelho A muitos que hoje vês prostrados ante a cruz! Ainda não cessou, de todo, essa contenda Que um dia, ha muito já, tentaste debellar: E aquelles que são bons e adoram tua lenda Desejavam tambem ouvir-te hoje falar. Apenas resoasse o teu verbo indignado, O latego febril das grandes corrupções, Iria atraz de ti um mundo revoltado Que sente na consciencia a luz das redempções. E embora não houvesse, aqui, outra alma gemea Da tua, e tão ungida em balsamos dos céos, Havias d'encontrar essa alma de bohemia Que sonha uma justiça e sente em si um Deus! Mas não, não voltes cá: teu corpo combalido Não póde supportar os gelos da manhã. Precisavas de pão, d'abrigo e de vestido E a vida aqui é cara e longo o macadam! Terias d'encontrar, de certo, mil estorvos No mundo revolvido, e escuta-me Jesus: Se não fosses, em fim, comido pelos corvos Talvez te fuzilasse um cura Santa-Cruz! Serias apontado a dêdo, muitas vezes, Como um simples bandido, um agitador feroz, E haviam de esconder seus ouros os burguezes Apenas resoasse, ao longe, a tua voz! Depois vinhas achar a par do proletario, Ao pé do que se innunda em bagas de suor, Aquelle velho Pedro, agora millionario, E triste por pensar que já esteve melhor! E perto do ocio vil á sombra do qual medra O egoismo feroz que extingue o coração, Lutando todo o dia o britador de pedra A quem á noite espera, em casa, um negro pão; E uns pequenos sem côr; talvez cheios de fome, Com pouca luz no olhar; atrophiados, nús; Abrindo os olhos muito á codea que elle come E indo-se deitar sem roupas e sem luz! Assim deixa-te estar. O teu cadaver triste Recende uma fragrancia etherea e divinal, Emquanto o mundo segue e vae de lança em riste Sem treguas combatendo as legiões do Mal! Tu foste o paladino, o trovador sagrado, Que falaste do amor, da paz e do perdão, E o ferro que varou teu corpo lado a lado Comtudo inda reluz altivo em muita mão! Nós, hoje, quando em luta erguemos sobre a liça O gladio vingador das oppressões crueis, Soltamos, n'um sorriso, o nome da Justiça, E ha quem saiba morrer sem bençãos nem laureis! Descansa pois Jesus! Bem basta que tu sintas, N'esse velho sepulchro, o immenso vozear Dos mineiros sem luz, das legiões famintas, Que nunca, um dia só, deixaram de lutar, Mas que hão de em fim vencer, porque a suprema essencia A jorros cae do céo nas mãos dos Prometheus, E tanto vae subindo a vaga da consciencia Que um dia ha de abismar-se em nós o proprio Deus

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