A Valla

G Guilherme de Azevedo
0 Altın Yaprak
Trazei mortos á valla; a hydra está com fome E deve ser-lhe longa a hora em que não come! Olhae como ella mostra aquelles que a vão ver, Inerte, sem pudor, de fauce escancarada, A amargura cruel da bocca desdentada Que pede de comer! Lançae ao monstro informe algum repasto novo! Trazei-lhe carne humana; arremeçae-lhe o povo. Tranzido pelo frio ou morto pelo sol! E visto haver na fera abysmos insondaveis Mandae-lhe as legiões dos grandes miseraveis Que morrem sem lençol! Eu quero vel-a farta, a lugubre panthera, Que, na sombra agachada, olhando em roda, espera A preza que lhe inveja a gula dos chacaes. Começa a ouvir-se ao longe a marcha vagarosa Da triste procissão cruel e dolorosa Que vem dos hospitaes. Um velho esquife chega: em duas taboas toscas Um pobre semi-nú coberto já de moscas, N'um riso deixa ver não sei que tons crueis! Emquanto nos sorria a luz das noites bellas, Talvez que elle varresse a lama das viellas E o lixo dos bordeis!... E poude, em fim, dormir no seio bom da morte! Apoz, como se fôra a livida consorte D'aquelle vil despojo, ás mesmas horas vem, Trazendo por sudario os seus vestidos rotos, Uma triste mulher caída nos esgotos Sem bençãos de ninguem! Devora-os ambos fera! Engole-os juntamente: Reune-os em consorcio e dá-os de presente Á larva que partilha as ancias do teu ser! Aguça o teu desejo!—A garra infecta lança Ao corpo tenro e nú d'uma gentil criança Que a mãe te vem trazer! Redobra d'appetite! Alonga-se a teu lado A fila tenebrosa! O espectro do soldado A par do que vergou cançado de cavar: E o mineiro sem luz, o martyr legendario; E amparando-se a custo ao velho proletario A flôr do lupanar! Mastiga a turba vil e alonga essa guela! Bem vês que vem chegando um corpo de donzella Que pela candidez recorda uma vestal! Voou-lhe, n'um sorriso, o derradeiro arranco E traz viçoso ainda um grande lyrio branco No seio virginal! Ó monstro sensual na sombra tripudia! Celebra no silencio a tenebrosa orgia, Que as Deusas vem chegando ao lubrico festim! N'um beijo os labios colla á frigida epiderme E o D. Juan da morte, o cavalheiro Verme, Que viva e gose emfim! Eu quero ver-te farta, em halitos profundos, Dormindo o somno vil dos animaes imundos, De ventre para o ar; serpente infecta e má! E ámanhã, na estação dos candidos amores, Veremos rebentar n'um tapete de flôres O lixo que em ti ha! E a santa mocidade; as languidas mulheres; Virão depois colher os gratos malmequeres, Pizando-te sem medo e cheias de desdem, Em danças sensuaes; o fato em desalinho; Compondo-te canções; regando-te de vinho; Sem pena de ninguem! E tu que és monstruosa, infame, vil, medonha; Que não mostras pudor; que não sentes vergonha; Que és a campa-monturo e não pódes ser mais; Cingida em fim, tambem, de rosas orvalhadas, Terás dado um perfume ás almas namoradas, E pasto aos animaes!

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